Estado em chamas: São Paulo registra recordes de queimadas em 2024

Com os maiores índices de focos de queimadas desde o início das medições, os incêndios são, em sua maioria, causados por ação humana

Em setembro, São Paulo registrou a pior qualidade do ar do mundo em decorrência do aumento das queimadas no país. Em relação a 2023, o Estado teve um aumento de mais de 400% neste ano, com 8.671 focos de incêndio. Foi registrado o maior número de focos nos últimos 26 anos, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou as suas medições.


Queimada no interior de SP - Imagem: Divulgação/Governo de São Paulo

Em comparação com os anos anteriores, é possível notar o aumento do número de queimadas, sendo 2024 o ano com maiores índices. Anteriormente, o recorde era de 2010, com um total de 7.291 focos, e 2020, com 6.123.

Com os números divulgados pelo Inpe, também é possível comparar a quantidade de queimadas de 2023 e 2024. É importante ressaltar que o número referente aos focos de queimadas de 2024 ainda pode aumentar, já que não estão sendo levados em conta os números de dezembro.

É possível notar o pico de 2024 em agosto, mês que historicamente possui mais queimadas em todos os anos em São Paulo. Somente neste mês, o número de focos de incêndio foi de 3.612, o maior do ano, segundo dados do Inpe. Houve, apenas neste mês, um aumento de 936% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Entre os principais fatores para este crescimento está a ação humana, como apontado pelos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais da Unesp, que indicam que a maior parte das áreas queimadas são pastagens plantadas, o que afeta a agricultura, áreas de preservação, animais e moradores.

Klécia Massi, pesquisadora e docente da Unesp, relatou que o aumento das queimadas também se dá por questões políticas, através da flexibilização de leis ambientais, e do uso do fogo como forma de pressionar o governo. “Acredito que existam duas razões principais para essas queimadas tão anormais: o primeiro é o uso do fogo em áreas públicas griladas para facilitar a ocupação dessas terras. [...] O segundo fator é o uso político do fogo, em uma tentativa de desestabilizar o governo, criando caos. Eu diria que a chance de os incêndios terem surgido por origem natural é mínima. Até porque temos de entender que o fogo de origem natural é desencadeado por um raio, e onde estava chovendo no Brasil naquela época? Em lugar nenhum. Fora isso, temos estudos que mostram que o fogo iniciado por raios geralmente se extingue rapidamente. Assim, é provável que os incêndios tenham origem humana, principalmente associados a práticas de desmatamento e interesses políticos”, disse Massi ao Jornal da Unesp.

Como mencionado pela pesquisadora, além da ação humana, as mudanças climáticas, secas e ondas de calor excessivo também influenciam o surgimento de queimadas. A partir de uma análise do Índice de Precipitação Padronizado de Evapotranspiração, que mede a quantidade de chuva e água perdida por evaporação e transpiração das plantas, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) determinou que em 2024 o Brasil passou pela seca mais grave desde 1950, ano em que começaram as medições.

Como apontado no início desta reportagem, um dos efeitos do aumento das queimadas é a deterioração da qualidade do ar que, em conjunto com as fumaças, prejudica a saúde respiratória da população. Também é importante ressaltar que as fumaças afetam não apenas a região onde se originaram, mas também outras áreas à medida que são levadas pelo vento.

O pneumologista Elie Fiss, em entrevista à CNN, comentou sobre o efeito das queimadas na saúde: “nas regiões mais próximas dos focos das queimadas, a tendência é ter um pico de aumento de até 20% de procura por atendimento médico em 48 horas, devido aos sintomas respiratórios”. Além de questões respiratórias, as queimadas também podem causar irritações nos olhos e arranhaduras na córnea, através do contato com partículas de fuligem.

Ao ser questionada sobre como evitar que o índice de queimadas aumente cada vez mais, Massi apontou a necessidade de que os respondentes como corpo de bombeiros e defesa civil estejam bem equipados e preparados para combater os incêndios, além de promover ações durante todo o ano, e não apenas nos meses com maior número de focos. Também se faz urgente a integração entre estados e Governo Federal, a fim de elaborar leis mais eficazes.

* Matéria produzida em parceria com Clara Garcez e Felipe Ribeiro

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