Jogo de inclusão

Como o futebol para cegos fomenta a inclusão de pessoas com deficiência no esporte

Futebol de cegos: com campo e bola adaptados e o uso de vendas, a modalidade ganha cada vez mais espaço. #Acessibilidade: Um jogador do INSEP está comemorando com os braços pra cima, ao redor podemos ver outros jogadores - Imagem: Reprodução/Instagram

A questão da acessibilidade no esporte é extremamente relevante, pois garante que todos os indivíduos tenham acesso à prática esportiva, independentemente de suas limitações. Um exemplo de inclusão é a modalidade “futebol para cegos”, também denominada “futebol de cinco”. Semelhante ao futebol de salão, porém com grama sintética, a prática é focada especialmente em pessoas com deficiência visual, contando com quatro jogadores na linha com classificação de cegueira total (B1), sendo a única exceção o goleiro, que possui visão total ou parcial (B2 ou B3).

A quadra, de dimensões 20m x 40m, possui barreiras (bandas) laterais com 1m de altura, que servem para impedir a bola de sair do campo. A bola também é adaptada, possuindo guizos que ajudam os jogadores a localizá-la durante a partida. Durante a partida, os goleiros (que possuem visão total ou parcial) e o técnico podem dar instruções aos jogadores, desde que em áreas específicas. Além disso, o atleta que está em posse da bola pode seguir o jogo normalmente, mas quem for dar o combate nele deve falar “voy” (vou em espanhol) para avisar que está indo; caso contrário, será considerado falta. O jogo tem dois tempos de 15 minutos cronometrados.

Para garantir que os jogadores possam encontrar a bola facilmente e ouvir as instruções dos goleiros e técnico, a torcida deve ficar em silêncio, só comemorando alto em momentos como gols e intervalos

De acordo com Luiz Roberto de Barros Junior, técnico do time Instituto Nova Visão (INV), há ainda muitos desafios a serem superados para que o futebol de cegos ganhe mais espaço no mundo esportivo, como a falta de patrocínio, pouca cobertura midiática e o fato de que não existe um campeonato feminino. No entanto, ele destaca o quanto a modalidade tem evoluído aos poucos, ressaltando a importância da Lei de Incentivo ao Esporte, que beneficia o INV desde 2020.

O Jornal da Periferia entrevistou o atleta carioca Eduardo Junior de Oliveira, conhecido pelo apelido "Dudu". Cego de nascença em decorrência de um glaucoma congênito, o atleta tem uma vasta trajetória no futebol de cinco, tendo inclusive passado por inúmeras experiências, incluindo sua passagem pela seleção brasileira, onde se consagrou campeão em 2014 no Mundial no Japão. Atualmente, Dudu faz parte da equipe Instituto Nova Visão.

Jornal da Periferia: Como foi a sua entrada no esporte?

Dudu: Eu sempre achei interessante, sabe? No Instituto Benjamin Constant, escola onde eu estudei, já havia uma tradição paralímpica. Lá tinha judô e natação, e acho que as principais modalidades paralímpicas estavam lá. Eu comecei no judô e só depois migrei para o futebol.

JP: Como foi o processo de adaptação à modalidade?

D: Para falar a verdade, eu nem imaginava que cegos podiam jogar bola. Eu nunca tinha ouvido falar no futebol de cinco. No início foi difícil para mim, principalmente na dificuldade de aprender a conduzir a bola. Sobre a adaptação, para mim foi algo tranquilo, já que eu nasci cego, nunca enxerguei. A gente não sente falta do que nunca teve, sabe? Muitas pessoas que já nascem com a deficiência acabam desenvolvendo uma adaptação natural. Já quem perde a visão mais velho tem que passar por todo um processo de aprendizado para se adaptar. Mas, para mim, sempre foi tranquilo. Claro, às vezes penso que, se enxergasse, algumas coisas seriam mais fáceis, mas já estou adaptado à minha realidade.

JP: Como foi sua experiência na seleção brasileira e o que significou para você representar o Brasil?

D: Eu cheguei à seleção com 15 anos, e comecei a treinar em 2006 para 2007. Meu primeiro campeonato foi em 2010. Acho que tudo isso foi muito marcante para mim. Meu primeiro campeonato, em 2010, foi uma experiência incrível. Fui convocado em 2009 e, de lá, permaneci até 2015. Lá disputei o Mundial no Japão, onde fui campeão em 2014. Eu já tinha representado o Brasil em competições internacionais menores, mas viajar para um lugar tão distante e representar o país foi maravilhoso.

Legenda: Eduardo Junior de Oliveira, o Dudu, fez parte da seleção brasileira de 2014, vencedora do campeonato mundial. #Acessibilidade: Foto 3 por 4 do ala Dudu, que sorri, na preparação do Mundial de 2014 - Imagem: Reprodução/Instagram

JP: Pensando em sua trajetória, como você ingressou no INV?

D: É minha segunda passagem pelo INV. Já joguei aqui antes, em 2017, e retornei em 2019. Hoje estou indo para o quarto ano com eles. É um clube muito bom, uma família. Atualmente, somos uma das maiores equipes do Brasil. Ficamos entre os cinco melhores do país, com bons jogos e resultados expressivos.

JP: Você pretende voltar a jogar pela seleção?

D: Pretendo, sim. Vou me dedicar ao máximo agora. Estou fora da seleção há um bom tempo. Quero focar nesses próximos quatro anos até Los Angeles 2028, para ver se consigo voltar e realizar o sonho de disputar a principal competição da modalidade. Vamos ver o que acontece.

JP: Como você avalia as condições para atletas paralímpicos no Brasil?

R: A vida de atleta não é fácil, ainda mais no cenário paralímpico. No Brasil, é ainda mais complicado para atletas, que têm pouco apoio do governo, mesmo trazendo mais medalhas que os atletas olímpicos. Temos pouca visibilidade e, desde as Paralimpíadas de 2016, o apoio diminuiu. Acho que deveria haver mais incentivo, mas seguimos na luta.

JP: Pensando em sua experiência, que dica você daria para alguém que deseja ingressar na modalidade?

R: Primeiro, muita dedicação. Ouvir e prestar atenção são fundamentais. Futebol de cegos é um esporte de muito contato, muito dinâmico e físico, então treinar é essencial.

Modalidades paraolímpicas receberam mais atenção ultimamente por conta dos Jogos de Paris. #Acessibilidade: Time do INSEP em círculo com as mãos uma em cima da outra, demonstrando união - Imagem: Reprodução/Instagram

* Matéria produzida em parceria com Clara Garcez e Felipe Ribeiro

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