“Fui o maior algoz”, diz Valmir Salaro ao relembrar caso da Escola Base
Com mais de três décadas de carreira, o jornalista Valmir Salaro compartilhou experiências e alertas sobre ética no jornalismo durante aula magna para estudantes da FIAM-FAAM
Na noite desta terça-feira (2), no campus da FIAM-FAAM, localizado na Vila Mariana, os estudantes dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas tiveram o privilégio de participar de uma aula magna ministrada pelo jornalista Valmir Salaro, conhecido por sua longa trajetória no programa Fantástico.
Durante a palestra, Salaro compartilhou parte de sua experiência no jornalismo, relembrando passagens pela TV Globo e pelo UOL, além de abordar o polêmico caso da Escola Base, em que afirmou ter sido “o maior algoz” das vítimas.
Questionado sobre os erros cometidos na cobertura, o jornalista foi direto ao admitir que foi precipitado e descuidado, priorizando o furo jornalístico em detrimento da responsabilidade, o que acabou prejudicando a vida de pessoas inocentes. “Reconhecer os erros é parte do aprendizado e do compromisso com a verdade”, afirmou.
“O impacto foi devastador. Pessoas perderam reputação, empregos e tranquilidade. Foi um caso que marcou minha carreira e me ensinou sobre a responsabilidade que temos ao cobrir denúncias e acusações, especialmente quando envolvem crianças e famílias”, destacou.
Os estudantes também levantaram questões sobre como conduzir entrevistas em situações delicadas. Salaro explicou que, no caso da Escola Base, cada conversa foi planejada com cautela: “Negociamos com os pais das crianças, garantindo que pudessem se manifestar sem risco. Subíamos pelas escadas, sem câmeras expostas, para não gerar constrangimento ou pressão. O objetivo nunca foi conseguir confissões, mas permitir que os envolvidos apresentassem seu lado.”
O Salaro também comentou a importância de produções audiovisuais para corrigir injustiças e contextualizar erros do passado. Ele citou o documentário “Escola Base - Um repórter enfrenta o passado” (2022), produzido pelo Globoplay, que revisita o episódio para expor as falhas da cobertura jornalística.
“Documentários e reportagens bem-feitos são fundamentais para mostrar a verdade e corrigir injustiças. No caso da Escola Base, não culpamos ninguém especificamente, apenas explicamos o que aconteceu, reconhecendo o erro da cobertura anterior. É importante para o jornalismo assumir responsabilidade e servir como aprendizado para futuras gerações.”
Ao final da aula, Salaro incentivou os futuros jornalistas a não se deixarem levar pelo imediatismo e a cultivarem a ética como pilar da profissão. “Seja ético e humano. O jornalismo investigativo é desafiador, envolve riscos e pressões externas. É preciso equilibrar rigor, independência e sensibilidade. Acima de tudo, o jornalista deve lembrar que suas palavras e reportagens têm impacto real na vida das pessoas. O dever é informar, fiscalizar e proteger os inocentes, sempre com responsabilidade”, concluiu.
Relembre o caso
Em março de 1994, um caso chocou a comunidade do bairro da Aclimação, em São Paulo, após a denúncia de uma mãe de um aluno da Escola de Educação Infantil Base. Ela suspeitava que o filho poderia ter sido abusado sexualmente dentro da instituição. A acusação, sem provas concretas, foi divulgada de forma precipitada pela imprensa.
As vítimas — os donos da escola, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada (Cida), o casal de amigos Maurício Alvarenga e Paula Milhim, além de dois funcionários — foram expostas como culpadas antes mesmo do avanço das investigações. Como consequência, a escola foi depredada por moradores revoltados, e os acusados perderam o negócio, a reputação e a estabilidade financeira. Mesmo após indenizações e retratações, até hoje os inocentes não conseguiram recuperar totalmente suas vidas.
Posteriormente, ficou constatado que a criança sofria de um problema intestinal, que havia sido confundido com sinais de violência. O episódio se tornou um dos maiores exemplos de erro jornalístico no Brasil.

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